Um homem baixinho, calvo, de olhos perdidos e mãos calejadas que carrega uma mala de viagem grande, repleta de bolsos com um cadeado travando o maior deles, sobre no transporte público pela porta do meio, todos o observam fazer força para levantar a mala e deposita-la no chão do coletivo antes de se posicionar para subir os pequenos degraus que o levam para o interior do carro, nenhum dos presentes se habilita a ajuda-lo.Após o exercício feito, o homem que agora fica mais visível, fazendo saltar as rugas ao redor de seus olhos, em sua testa e as veias ressaltadas da mão que grosseiramente leva ao bolso de sua calça e retira um papel já bem amassado para enxugar singelas gotas de suor que se fixaram em seu rosto.Ele anda pelo corredor levando com dificuldade a mala, quando se recorda de que não pagou a passagem e retorna a posição anterior, e aproximando-se do cobrador, entrega seu cartão para que o valor seja descontado, feito isso, retorna a sua saga a procura de um acento, ele se acomoda em um dos bancos reservados do lado esquerdo do corredor, antes de sentar ajeita sua mala no espaço que fica entre os bancos, pedindo desculpa com um gesto de cabeça para a mulher de bolsa vermelha e fones de ouvidos brancos por ter acidentalmente encostado a mala em suas pernas, segura-se com mais força para manter o equilíbrio pois o ônibus já chegou ao ponto seguinte, se acomoda no banco, e respira profundamente por um tempo, como se para acalmar seu corpo de tanta atividade. Me pego perguntando a mim mesma o porque escolhi acompanha-lo neste pequeno momento, e por um instante me pergunto também qual seria o conteúdo daquela mala?O que será que ele já fez na vida que o levou a calejar as mãos? E se ele não tivesse pago a passagem, será que algum passageiro se incomodaria? O fato de ser calvo seria por stress ou genética? Dispersos meus pensamentos vagueiam entre suposições, imagino situações e histórias a cerca de sua vida e do conteúdo em sua mala, tento até mesmo analisar sua personalidade.Mas todo o entusiasmo em tentar romantizar e fabricar um conto advindo deste simples senhor que pegou o mesmo transporte que eu, logo se esvai quando percebo, que entre todas as suposições e inferências, em momento algum me preocupei em dar-lo um nome, apenas o encaixei em esteriótipos e o inseri em ações cinematográficas sem nem mesmo querer saber sua identidade. Coloco os fones de ouvido e me concentro na música antes que fique transparente demais a minha indiferença.
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